Fazes parte daqueles ciclistas que ficam sem energia rapidamente, e não sabes porquê?

Ficas frustrado porque não sabes o que tens de fazer para conseguires ter mais energia para a parte final de uma prova, ou para passar uma subida difícil?

Queres melhorar os teus desempenhos mas dás sempre o máximo em todas as provas ou treinos?

Se respondeste SIM a alguma das perguntas anteriores, parabéns! Este artigo é aquilo de que precisas!

Eu sei o que isso é, pois faz-me lembrar os meus primeiros tempos em que andava de bicicleta. Sim, porque andar de bicicleta e fazer ciclismo é muito diferente.

Eu tinha alguns problemas que, até eram fáceis de resolver, mas só descobri isso mais tarde. Problemas como por exemplo:

  • Não sabia gerir o esforço corretamente
  • Não percebia como é que podia melhorar pois não sabia nada sobre treino
  • Não sabia porque é que a energia acabava rapidamente

Penso que são dúvidas legítimas. Afinal não há coisa pior do que fazer algo de forma desorientada ou desorganizada.

Quando vamos fazer um percurso que já conhecemos tudo fica mais fácil não é mesmo? O mesmo se aplica ao nosso corpo. Quando conhecemos como ele funciona, já sabemos o que nos espera, e portanto, vamos mais confiantes no trabalho que estamos a fazer.

Por isso, o primeiro passo que precisas de dar para melhorar os teus treinos no ciclismo é esse mesmo. Conhecer como o teu corpo funciona!

E é isso que vais aprender hoje. Como é que podes gerir o teu esforço se nem sequer sabes como o teu corpo produz energia?

É por aí que tens de começar. Quando descobrires isso, tudo vai fazer mais sentido na tua cabeça. Vê os tópicos que vamos abordar neste artigo:

  • O que é o metabolismo energético e como funciona?
  • Como jogar com as fontes de energia para obter melhores resultados?
  • Como o metabolismo anaeróbio pode ser o teu melhor amigo

O que é o Metabolismo Energético e como funciona?

metabolismo energetico

A palavra metabolismo é muitas das vezes mal entendida pelos ciclistas mais distraídos. Alguns acham que o metabolismo é uma parte do corpo, ou que acham que o metabolismo é um sistema de treino…

Mas não… metabolismo é algo tão simples que quando vires a definição nem vais acreditar.

Metabolismo é o sistema energético do nosso corpo. É ele quem gere a quantidade de energia que é produzida para as funções vitais do nosso organismo, e é ele também que gere qual o tipo de energia vai utilizar.

Para o comum dos mortais, seria muito fácil pensar que depois de ler a citação anterior, iria perceber que só quem é expert em fisiologia do treino poderia entender estes fenómenos do corpo humano.

No entanto, o metabolismo funciona de uma forma incrivelmente simples que uma criança da escola primária conseguiria aprender facilmente.

No sistema energético existem duas grandes funções. Essas funções chamam-se:

  • Catabolismo
  • Anabolismo

E certamente já ouvis-te falar sobre elas em algum momento da tua vida. No entanto, se não ouviste não há problema. Se fizeres uma pesquisa no google ou no youtube sobre o que é o metabolismo, anabolismo e catabolismo, irás facilmente chegar a um vídeo meu falando sobre isso, pois aparece logo na primeira página.

Mas para te poupar esse trabalho, porque sei que estás concentrado nesta leitura, abaixo deixo esse que foi um dos meus primeiros vídeos da Escola Desporto, que aborda muito ao de leve esse assunto. 🙂

(Continua a ler o texto apenas depois de veres o vídeo para ser mais fácil entenderes)

Certamente já deu para entender o que são ambas as coisas.

E o curioso em tudo isto é que o processo é todo ele simples. O metabolismo precisa SEMPRE de utilizar energia. Quer para o catabolismo, quer para o anabolismo.

Mesmo para ti que estás a ler este artigo, o teu metabolismo está neste preciso momento a usar energia para anabolizar e catabolizar (certamente em proporções diferentes).

Para melhor percebermos o processo de gestão da energia, temos de aprofundar ainda mais este tema.

Aprofundar significa ir direto ao ponto. Afinal aonde é que o metabolismo vai buscar essa energia para anabolizar ou catabolizar?

A resposta está na molécula de ATP (adenosina trifostato). Resumindo, essa molécula é a junção entre uma molécula de adenosina e 3 fosfatos, e sempre que estas substâncias moleculares se juntam, formam energia + calor.

Mas de onde vem a ATP?

atp

O corpo humano é uma máquina muito inteligente, e sabe que a ATP é essencial para viver. Mas se ele quer viver com índices de performance mais altos, o preço a pagar será uma necessidade de o metabolismo produzir muito mais ATP (energia) para conseguir corresponder a essas exigências.

Faz sentido, certo?

Ok, até aqui deu para entender. Mas e de onde vem essa energia? Como é que o corpo vai buscar essa mesma ATP tão necessária?

Acontece que o metabolismo produz energia através de dois tipos de mecanismos energéticos:

  • Sistema Anaeróbio
  • Sistema Aeróbio

Em função da quantidade e da rapidez de energia que o corpo precisa, ele terá de escolher que tipo de sistema que vai usar para obter essa mesma energia.

Desta forma ele terá de optar pelo metabolismo anaeróbio quando quiser energia mais rápido, e saberá que terá de optar pelo metabolismo aeróbio quando necessitar quantidades bíblicas de energia (daquela que nunca mais acaba).

Imaginem que o vosso treino necessita de uma grande intensidade para fazer uma determinada subida num tempo canhão. O metabolismo energético terá de encontrar uma forma de “arranjar” ATP suficiente para vos ajudar a produzir essa intensidade de esforço.

É através do sistema anaeróbio que ele vai buscar a ATP que necessita para tal efeito. Porquê? Porque é um esforço que necessita de energia rapidamente.

As grandes intensidades de esforço são conseguidas através da obtenção rápida de energia (sistema anaeróbio). Já a grande duração de alto esforço, é conseguida através de energia mais lenta (sistema aeróbio).

Por isso, pensem sempre de acordo com o tipo de competição que querem fazer. Isto é crucial para a preparação para essas provas ter sucesso. Vejam nos exemplos abaixo.

Exemplo 1: Quero produzir altíssimas intensidades em pouco tempo? (Ciclismo de Pista, Segmento de um percurso, etc) Resposta: Tenho de treinar maioritariamente o meu sistema anaeróbio.

Exemplo 2: Quero produzir uma intensidade alta mas que me dure por muito tempo? (Ciclismo de Estrada ou BTT – Maratona) Resposta: Tenho de treinar maioritariamente o meu sistema aeróbio.

Podemos também fazer o raciocínio ao contrário:

Exemplo 1: Quero fazer XCO. É um esforço que depende mais de altas intensidades energéticas em curto espaço de tempo, ou de intensidades altas em longos períodos? Resposta: 30% anaeróbio  e 70% aeróbio.

Exemplo 2: Quero fazer XCM. É um esforço que depende mais do altas intensidades energéticas em curto espaço de tempo, ou intensidades altas em longos períodos? Resposta: 10% anaeróbio  e 90% aeróbio.

Entendam que, quanto maior for a distância, menor será  a intensidade, e por isso mais dependência teremos do metabolismo aeróbio.

Quanto menor for a distância, maior será a intensidade, logo se a intensidade é maior, cada vez mais ficamos dependentes de energia rápida. (metabolismo anaeróbio).

E agora, vem a parte mais interessante. O sistema aeróbio e anaeróbio vão produzir energia através de fontes diferenciadas. Embora eu vá falar acerca disso no próximo ponto, vou deixar-vos aqui uma pequena noção de como funciona:

Metabolismo Anaeróbio:

  • Creatina Fosfato
  • Glicose
  • Glicogénio

Metabolismo Aeróbio:

  • Glicogénio
  • Gorduras

Esta informação vai ser-vos muito útil, porque depois de saberem isto, vão poder utilizar da melhor forma as diferentes fontes aeróbias e anaeróbias durante o vosso treino, para poderem tirar melhor rendimento!

É tudo tão simples quanto isto. 😉

Por isso já sabem. Dependendo do tempo de competição e/ou de treino que vocês fazem durante o ano, a proporção em percentagem dos dois tipos de energia vai ser diferente.

Logo, devem treinar intensidades mais altas ou mais baixas de acordo com a proporção existente nas vossas competições ou treinos.

Como jogar com as fontes de energia para obter melhores resultados?

metabolismo fontes de energia

Tal como já vimos no ponto anterior, o metabolismo para catabolizar ou anabolizar, necessita de ATP. E ele consegue essa ATP através de 4 principais fontes (mais uma extra):

  • Creatina Fosfato (CP)
  • Glicólise (Degradação da molécula de glicose)
  • Glicogenólise (Degradação da molécula de glicogénio)
  • Lipólise (Degradação dos lípidos/gorduras)
  • Síntese proteica (Degradação das proteínas) » É muito residual e só intervém em casos de sobrevivência extrema

Não vou estar aqui a entrar em detalhes de fisiologia explicando todas as etapas da degradação molecular, porque essa não é a principal informação que devem saber.

Tal como já devem ter entendido, a ordem com que coloquei as fontes energéticas não foi ao acaso, uma vez que ela representa a velocidade com com a energia é disponibilizada.

Sendo que o metabolismo utiliza as seguintes fontes energéticas da seguinte forma:

  • CP » Energia até 10 segundos (sem formação de lactato)
  • Glicólise » Energia de 10 segundos a 2 minutos (com acúmulo de lactato)
  • Glicogenólise » Energia de 2 minutos a aproximadamente 12 minutos
  • Lipólise » Energia após 12 minutos

Por isso, como devem ter percebido, esta é a ordem pela qual o nosso corpo vai utilizar a energia. O problema é que quanto mais rapidamente ela vem, mais rapidamente ela se vai. Isso é fácil de perceber com a ATP gerada através da CP que só dura 10 segundos.

Que tipo de exercício conseguiríamos fazer em apenas 10 segundos? Exatamente, estão a pensar bem. Exercícios de velocidade!

E a velocidade faz parte do metabolismo anaeróbio. (Sem entrar em muitos detalhes técnicos).

Quando passados esses 10 segundos, continuamos a necessitar de energia para continuar a dar alta intensidade ao exercício, no entanto já acabaram as reservas de CP.

Então o metabolismo vai começar a maioritariamente utilizar a glicose (em todas as suas etapas de decomposição) para gerar mais ATP que o exercício está a pedir.

No entanto aqui entra uma variável importante! Se até aqui, a energia gerada por CP não provocava acumulação de lactato, por outro lado a utilização da glicose provoca essa acumulação de lactato. E o que é o lactato?

Num próximo artigo vou explicar mais aprofundadamente o que é e porque ele é super importante para o metabolismo anaeróbio. Por agora, a única coisa que vocês necessitam de saber, é que quanto mais lactato o corpo conseguir produzir, melhor, significa que somos mais capacitados na nossa vertente anaeróbia!

E é evidente que quanto mais treinarmos as fontes de energia mais rápidas, mais eficientes vamos ser na utilização desta fonte de energia.

Sim, leram bem, eu não me enganei. Quanto mais lactato melhor. O lactato faz um efeito rolha para impedir a disseminação dos iões de hidrogénio na corrente sanguínea, (consequência da degradação da glicose).

Mais à frente neste artigo eu vou explicar porque é que é importante produzir mais lactato, ou se quiserem, por outras palavras, porque é que o metabolismo anaeróbio pode ser o nosso melhor amigo no treino.

Mas ok, voltemos então às fontes de energia. Depois de vermos a glicólise, que dura sensivelmente até 2 minutos, temos a glicogenólise, que é um processo mais lento que o anterior, e que consiste na degradação do glicogénio (uma molécula de glicogénio contém várias de glicose).

Este processo continua a produzir lactato, mas numa quantidade inferior, e demora 2 minutos até começar a entrar em acção, e vai sensivelmente até aos 12 minutos. Aqui estamos a utilizar preferencialmente o metabolismo aeróbio, embora com contribuição ainda do metabolismo anaeróbio.

É uma fonte de energia que é utilizada tanto pelo sistema aeróbio como anaeróbio. Muitos autores das ciências do desporto consideram esta fonte de energia a “zona mista” (por invadir a junção de ambas as coisas).

No entanto eu não concordo muito com esta ideia quando aplicada no ciclismo, uma vez que é um tipo de esforço maioritariamente aeróbio, principalmente quando ele é repetido por várias vezes ao longo de uma prova ou de um treino.

Embora reconheça que provas com 3 minutos de esforço enquadram-se nesta fonte de energia, e são maioritariamente anaeróbias. Depende muito do tipo de esforço que estamos a falar.

Mas vamos agora passar para a fonte energética mais lenta. A utilização das gorduras.

A lipólise (processo de transformação das gorduras em energia), que é a transformação das gorduras em energia, que é um processo que depende exclusivamente da respiração celular, e que por sinal depende exclusivamente do regime aeróbio.

Quero no entanto ressalvar que ainda existem outras fontes energéticas secundárias, como o ciclo de Krebs e o Ciclo de Cori, que vão funcionar em conjunto para ajudar a recuperar o organismo das intensidades mais altas, produzindo energia reutilizando os produtos das fontes mais rápidas de energia.

Mas como esse é um processo bem complexo, não vou abordar aqui, visto que isto não é uma aula de fisiologia, mas sim de treino desportivo. 🙂

Vamos ficar sempre limitados a esta ordem de utilização da energia?

Aqui surge a primeira dúvida de muita gente. Então isso significa que, o nosso metabolismo utiliza sempre as fontes de energia por essa ordem?

A minha resposta seria diferente conforme duas opções. A saber:

SIM, caso o ciclista aplique um esforço máximo do início ao fim do exercício. Neste caso ele esgotaria todas as fontes de energia por esta ordem.

ou

NÃO, ele iria gastar cada uma das fontes energéticas, consoante o ciclista fosse capaz de gerir o seu esforço e poupar energia. Isto, para que nos momentos decisivos, pudesse utilizar as diferentes fontes para fazer a diferença!

Por isso, aquilo que conta no final de tudo, é ter ambos os metabolismos bem desenvolvidos, para que nos momentos mais importantes, possamos utilizar os nossos argumentos com mais eficácia.

Não ficaram convencidos? Vejam então o que aconteceria agora, se olharmos para a fonte de energia utilizada, em função da intensidade do exercício, e não em função do tempo:

  • CP » Energia para sprints máximos
  • Glicólise » Energia para esforços máximos (aquele último km à morte, ou aquele momento que não queremos descolar da roda até terminar a subida)
  • Glicogenólise » Energia para esforços submáximos (intensidades altas, estilo contrarrelógio, encetar uma fuga, perseguir um adversário, etc)
  • Lipólise » Energia para esforços longos (os americanos chamam de endurance) numa intensidade média/baixa ou média/alta

Viram a diferença? Agora perceberam que consoante a intensidade que vamos colocar no exercício, o sistema energético vai recorrer a fontes mais rápidas ou mais lentas, conforme nós vamos tendo períodos mais intensos ou menos intensos durante o treino/competição.

E agora que já entenderam que tanto funciona de uma forma como de outra, o que vocês devem considerar é que cada fonte energética do metabolismo funciona combinando as duas coisas, resultando da seguinte forma:

CP » Energia para sprints máximos (dura no máximo até 10 segundos)

Esta fonte energética só é accionada em sprints máximos, e só dura até 10 segundos. Muitos de vocês pensariam. Mas então numa prova de 2 horas eu só posso fazer 1 sprint de 10 segundos?

NÃO. Porque a CP reestabelece-se no organismo passado alguns minutos, o que nos permite fazer mais alguns sprints recorrendo a esta fonte. Claro que ela se vai acabar por esgotar totalmente.

No entanto, tenham em consideração que, quantos mais sprints vão fazendo, mais vai diminuindo a capacidade máxima do sprint. Isto é, se no primeiro sprint eu conseguia fazer 10 segundos, no segundo já só consigo fazer 9, no seguinte já só consigo fazer 8, etc, etc.

E isso é mau em que sentido? Se queremos forçar os sprints vamos começar a entrar na fonte energética seguinte, a da glicose, e vamos começar a acumular mais lactato, e a degradar mais o músculo.

Por isso, usem bem esta fonte energética, não a desperdicem, sejam inteligentes! (Se não forem sprinters ainda mais importância tem a poupança deste recurso energético escasso)

Glicólise » Energia para esforços máximos (dura cerca de 2 minutos)

Sabem aqueles momentos em que vamos mesmo no redline? Já não dá mais? Sim, é esta a fonte energética que estão a utilizar. E mais uma vez. Só podemos estar 2 minutos nesta intensidade durante toda uma prova de 2 ou mais horas?

NÃO. Porque a Glicose pode ser obtida pelo abastecimento líquido que ingerimos e pela refeição pré-treino, o que acresce às reservas de glicogénio muscular que temos no músculo. Por isso, separados por períodos de no mínimo 15 minutos, podemos fazer 4 ou 5 esforços destes numa prova de longa duração.

Isto se o músculo não colapsar antes disso, devido à inflamação muscular e à retenção de iões de hidrogénio em excesso (Acontece com frequência).

Glicogenólise » Energia para esforços submáximos (dura aproximadamente até 12 minutos)

É um esforço que exige muito da nossa capacidade “masoquista”. Aquele esforço penoso mas que dura vários minutos, em que estamos ali quase a apanhar o ciclista da frente mas parece que nunca mais chegamos lá, ou que estamos isolados em fuga à frente do pelotão e está a custar imenso continuar-mos por ali.

Podemos aplicar este esforço também alguma vezes durante uma competição, mas depende dos limites das nossas reservas de glicogénio no músculo, da acumulação de lactato, e da inflamação muscular, já que caso tenham usado em demasia as fontes energéticas mais rápidas, vão ter mais dificuldade em repetirem esta “gracinha”.

Por isso usem-na apenas quando extremamente necessário.

Lipólise » Energia para esforços longos (de 12 minutos para a frente)

Qualquer esforço de média ou baixa intensidade, usamos os lípidos. Esta é a intensidade onde devemos estar durante a maioria do tempo numa prova de longa duração. Devemos fomentar sempre a poupança energética durante toda a competição ou treino, para que na parte final possamos utilizar as fontes mais rápidas de energia.

No entanto esta fonte tem uma desvantagem. Quanto mais tempo estivermos na fonte aeróbia dos lípidos, menos vezes vamos conseguir utilizar as restantes, e portanto, mais sábios na utilização da energia temos de ser! 😉

Como se cruzam o metabolismo aeróbio e anaeróbio?

Para se conseguir distinguir qual dos metabolismos está a ser utilizado naquele exato momento, naquele exercício, naquele contexto, não é tão fácil quanto parece.

No entanto, para que vocês entendam facilmente, deixo-vos aqui um gráfico que mostra como as fontes se cruzam entre si, e como à medida que o tempo passa, vão predominado umas fontes em detrimento de outras.

Metabolismo aeróbio vs anaeróbio

Contribuição dos 3 sistemas energéticos conforme o tempo do exercício.

Na imagem acima podemos observar que a partir do momento em que determinadas fontes se começam a esgotar, começam a entrar outras de cariz mais duradouro, que começam a ter mais influência na realização daquele esforço.

Como o metabolismo anaeróbio pode ser o teu melhor amigo

metabolismo aerobio anaerobio

Existem alguns “zun-zuns” por aí, que insinuam que os ciclistas com a idade vão perdendo as suas capacidades anaeróbias.

Normalmente a informação publicada beste blog serve para quebrar alguns mitos. No entanto desta vez dou a mão à palmatória:

SIM, os ciclistas vão perdendo as suas capacidades anaeróbias com a idade.

Mas então porque é que isto acontece? A resposta está essencialmente num grande motivo:

Os mecanismos anaeróbios de obtenção de energia estão diretamente ligados a fatores de aproveitamento muscular de fibras rápidas.

É sabido que a genética influencia a predominância de maior ou menor quantidade de fibras rápidas no nosso sistema muscular.

No entanto, quer tenhamos geneticamente bem apetrechados ou não desse tipo de fibra muscular, a idade é um fator que nos vai fazer perder essa vantagem ao longo dos anos, graças às maiores tendências de perda muscular, e déficits na segregação das enzimas que produzem a CP e a Glicose, que se vão degenerando com o tempo.

Existe um provérbio muito usado no atletismo, que diz que: “Um sprinter nasce, um maratonista faz-se“. Neste caso, é um provérbio sábio, que nos faz pensar que um grande sprinter só o vai ser se nascer geneticamente predisposto a desenvolver essas competências , e claro, treinando no máximo potencial competitivo o seu desenvolvimento anaeróbio.

No entanto, quantas vezes já vimos sprinters dos 100 metros, que a partir de certa idade, começam a fugir para os 200 metros, e mais tarde para os 400 metros? Este fenómeno não acontece só no atletismo, e não só com sprinters. Também acontece com os atletas de resistência.

Quem não se lembra da nossa corredora Jéssica Augusto, que começou em resistências de mais curta duração (onde a percentagem de metabolismo anaeróbio é maior), passando depois para o corta-mato, e hoje em dia já está na maratona?

Ou por exemplo a Sara Moreira que corria o meio fundo nos 10.000 metros e também decidiu passar para as distâncias maiores, correndo a maratona?

E exemplos no ciclismo? Não faltam!

Mark Cavendish: O sprinter que trocou o ciclismo de pista (predominantemente anaeróbio) pela estrada (predominantemente aeróbio).

Bradley Wiggins: Trocou a pista também pela estrada, chegando a vencer um Tour.

Ou por exemplo o Cadel Evans, que trocou o XCO, prova de mais curta duração, pela estrada (mais longa duração).

E enúmeros outros atletas mais ou menos conhecidos, que trocaram distâncias curtas por distâncias mais longas.

E o que todos eles têm em comum?

Nenhum destes exemplos fez o percurso inverso ao longo da sua carreira (passar de distâncias mais longas para mais curtas). Porquê?

Porque é verdade. A idade influencia a diminuição da nossa capacidade anaeróbia. Daí que seja por esse principal motivo que os ciclistas mais velhos e (principalmente) os que têm mais anos de competição, se tornam mais fortes nas longas distâncias ao longo do tempo.

Não por treinarem muito os mecanismos aeróbios desde cedo, mas sim porque treinarem e competiram muitos anos em resistências mais curtas, e já têm as armas necessárias para subir para distâncias maiores, que dependem mais do treino do que da genética.

Nunca se perguntaram porque é que os ciclistas dos escalões de formação vão aumentando a distância com a idade? Nas idades mais precoces desenvolvem a velocidade e a resistência de curta duração (que são predominantemente anaeróbias*), e com o passar dos anos começam a desenvolver a resistência de longa duração (que é mais predominantemente aeróbia).

É um processo natural, e como já vêm há muitos anos a desenvolver as competências anaeróbias do seu treino, ficam cada vez mais aptos a desenvolver as competências aeróbias.

*No caso dos atletas muito jovens, só a partir da entrada na puberdade é que o seu potencial de utilização anaeróbia está desenvolvido, já que as suas enzimas que sintetizam a glicose ainda estão a desenvolver-se.

Mas provavelmente a maioria de vocês deve neste momento estar a perguntar-se:

Eu já não vou para novo, nunca tive muita capacidade de produzir intensidades altas (metabolismo anaeróbio), tenho pouca experiência, então segundo este raciocínio, devo focar-me apenas no treino aeróbio de mais longa duração?

A resposta é um redondo NÃO!

Não cometam esse erro, porque esse é o que provavelmente 90% dos ciclistas amadores cometerá. Como sabem disso, partem do princípio que não vale a pena trabalharem a componente anaeróbia do treino, por acharem que não vão ter mais benefícios na performance treinando a curta duração.

» Clica AQUI e vê também quais são os 10 principais erros que o ciclista comete no treino, e como os podes evitar.

Sim eu sei. Sei que não é fácil acreditar no que eu estou a dizer. Mas se ainda tens dúvidas, vê como um ciclista amador evoluíu 40 Watts de potência em apenas 3 meses, treinando muito a sua vertente anaeróbia. Vê AQUI a entrevista que fiz com ele (vale a pena ver o vídeo até ao final).

Por isso, não penses que por já teres mais de 28 anos deves agora deixar o treino de curta duração, só porque não tens experiência no ciclismo ou poucos anos de bicicleta.

É importante trabalhar essas capacidades, pois elas vão ser muito importantes para desenvolver as resistência de maior duração também (mais dependentes do metabolismo aeróbio).

E isto é válido quer para aqueles ciclistas que são geneticamente mais dotados de capacidades anaeróbias, quer para os menos dotados. Todos beneficiam com o treino anaeróbio. Todos mesmo!

Resumindo

Fazendo um apanhado de tudo o que foi abordado neste artigo, começamos por entender que o metabolismo é o sistema energético do nosso corpo. Que ele trabalha tanto no anabolismo como no catabolismo, e que para tal acontecer ele necessita de gerar moléculas de ATP (adenosina trifosfato).

Percebemos que o sistema energético do corpo gera ATP pela via anaeróbia e aeróbia, e vimos também que ambos dependem da rapidez e da quantidade de energia que é necessária para responder às necessidades do exercício que estamos a fazer.

Após perceberes como o metabolismo funciona na sua essência, viste como podes beneficiar com isso, percebendo como o metabolismo obtém energia, jogando com isso a teu favor.

Percebeste que as principais 4 fontes de geração de ATP são a Creatina Fosfato (CP), Glicose, Glicogénio, e Lípidos (gorduras).

Percebemos que cada uma delas está associada a uma determinada intensidade de esforço, e a um tempo de duração, e que podemos jogar com isso a nosso favor para gerir o esforço de forma mais eficaz.

Vimos também que cada uma delas deve ser usada de forma diferente para não se esgotarem as energias rapidamente.

Isso é fundamental para obteres melhores resultados, pois é uma vantagem competitiva que tu tens perante outros ciclistas que nem sequer percebem o que está a acontecer no seu corpo quando treinam.

Lembra-te que conheceres o teu corpo é meio caminho andado para obteres bons resultados!

Depois, ensinei-te a importância de desenvolver o metabolismo anaeróbio, para poderes ter melhor rendimento nos esforços aeróbios de mais longa duração.

Percebeste como é que o avanço da idade e dos anos de competição, influencia a perda de qualidades anaeróbias.

No entanto, quando bem treinados, os atletas de resistência têm excelentes desempenhos nas provas de mais longa duração, e por essa razão muitos deles optam por mudar para competições de maior componente aeróbia, uma vez que o metabolismo aeróbio também sofre adaptações positivas com o treino anaeróbio de curta duração.

Por tudo isto, é muito importante que continues a tua jornada na procura do melhor rendimento. Não te esqueças que andar sempre no máximo nem sempre é a melhor estratégia para ter um bom rendimento, mas que também poupares demasiado não te vai destacar dos demais adversários.

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